Atenção: Se você encontrar o palhaço que se esconde de viado que eu adicionei no meio do texto, deixa um comentário dizendo “achei” (mas não fala pra ninguém onde ele está!).
Qual o cruzamento de um Quero-Quero com um Pica-Pau?
A nomenclatura correta seria “quero-quero x pica-pau hybrid”. É assim que cruzamentos de espécies diferentes são catalogados quando encontrados na natureza. “Até onde eu saiba, um híbrido entre os dois nunca foi registrado. Tem várias considerações aí. Quero-quero é só uma espécie, Vanellus chilensis (da família Charadriidae). Pica-pau é toda uma família, Picidae”, diz minha ornitóloga de confiança, Deborah Oliveira[1]a Deborah é tão a pessoa certa para responder esta pergunta que, em 2013, ela esteve na equipe que descobriu um híbrido entre duas espécies em Goiás: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1676/13-024.1.
Para uma reprodução, vários fatores têm que acontecer, muito mais do que um match no Tinder. As espécies têm que ter a mesma distribuição global, por exemplo. Isso não seria um problema: é possível encontrar as duas espécies em quase toda a América do Sul (porém os Quero-Quero evitam as áreas de floresta densa, como a Amazônia).
Mas só estar no mesmo lugar não é o suficiente, como qualquer nerd em balada já descobriu. Além do interesse, as partes e buracos (vocês entenderam) têm que ter os tamanhos certos para encaixar durante o sexo. E, mesmo se houver fecundação, o embrião teria que ser viável, já que a combinação genética pode não fazer sentido.
Logo, um descendente das duas aves é uma hipótese extremamente improvável, mas não completamente impossível. E a resposta certa em português para o resultado do acasalamento seria cientificamente um “híbrido de quero-quero e alguma espécie de pica-pau”.
Em um dia quente, é até bom uma chuvinha em cima
Nem sempre. Dependendo do calor e da umidade do ar, uma pequena chuva pode até piorar a sensação térmica. Isso porque, após ela molhar o chão, a água tende a evaporar novamente. Isso aumenta a umidade do ar, como explicou de forma coloquial a meteorologista Marina Vieira.
Nosso corpo tem um sistema de regulação de temperatura esperto através do suor: o suor da nossa pele, ao evaporar, leva consigo o calor, resfriando a pele (veja mais a respeito logo abaixo neste mesmo texto). Porém, com uma umidade do ar elevada, as gotas de suor encontram uma dificuldade em evaporar, devido à grande concorrência presente no ar. Esse mecanismo de resfriamento falha e a sensação térmica pode aumentar.
Jacaré no seco anda?
Lógico que anda. O jacaré (e os crocodilos também) põe seus ovos em ninhos construídos em terra. Isso significa que eles andam no seco assim que nascem. Aí rumam direto para a água, e por lá passam mais de 80% do seu tempo. Além de motivos reprodutivos, os jacarés vêm para a terra por motivos de regulação do calor corporal e para ser dançarino do É o Tchan ao lado de duas Sheilas.
Bela camisa. Linho fio grosso?
“Linho é um tecido tão bonito quanto desconfortável”, diz Daniel Rodrigues, profissional da indústria têxtil há mais de 10 anos, CMPO da empresa El Elyon. “Normalmente quando um tecido é feito com linho, ele é misturado com outras matérias, como algodão, para que fique confortável no corpo”.
Isso é um tipo de tecido chamado “polilinho”, que é o mais comum na indústria têxtil em roupas de linho. É muito difícil encontrar um fio grosso desse material porque todas as fibras que compõem esses fios são muito compridas e, portanto, finas.
Daniel conseguiu, pela sua empresa, desenvolver um tecido de algodão cru (100% algodão) que passa todas as características positivas do linho (um tom caramelizado natural, sem tingimentos, uma estrutura sólida, com um aspecto rústico), porém com uma agradável sensação na pele. Porque linho fio grosso parece ser tão desagradável quanto soa.
Se quem nasse em Pernambuco é pernambucano, como se chama quem nasce em Tilambuco?
Sem dúvidas, esta foi a pergunta mais difícil de responder desta seleção. Para começar, ela é construída de forma aparentemente tendenciosa: a pergunta poderia, ao invés de citar o estado de Pernambuco, citar a cidade de Macuco (RJ), cujo gentílico correto é macuquense. Além desses, o único outro gentílico nacional formado por uma terminação em uco é de Joaquim Nabuco (PE), cujo gentílico também usa a terminação -ense: nabuquense.
O -ense é definitivamente o queridinho dos gentílicos: 92% dos gentílicos no Brasil usam essa terminação. Esses dados vêm do estudo sobre Formação de gentílicos através de topônimos[2]este daqui, do linguista e pesquisador Roger Antunes. Tentei entrar em contato com Roger, mas ele não me deu ouvidos[3]o que é uma pena, dada a importância da pesquisa, mas um dos colaboradores do trabalho me enviou a dissertação completa[4]esta daqui, que faz uma análise de como seria a formação de gentílicos para qualquer topônimo, mesmo um fictício.
Seguindo o algoritmo de formação de topônimos desenvolvido pelos pesquisadores da UFSCar[5]aqui, quadro 1, página 77, dois resultados possíveis seriam encontrados: tilambuquense e tilambucano. As regras grafemáticas facilmente eliminariam o ditongo de tilambucoano, nem que fosse por jurisprudência ortográfica: afinal, não falamos pernambucoano.
A escolha do gentílico poderia ser por hábito cultural ou até mesmo pode estar escrita na legislação municipal. E aí seria o povo ou os líderes políticos de Tilambuco que viriam com a decisão final. Enquanto isso, dá para responder tilambuquense se você for chato ou tilambucano se você quiser perpetuar o chiste. Eu prefiro.
Neste calor, como a bunda sua
Sua, mas nem tanto.
A maior concentração de glândulas sudoríparas no corpo humano está na testa, couro cabeludo, palmas das mãos, e solas dos pés. Esses lugares também têm uma maior concentração de glândulas écrinas, que geram aquele suor salgado e inodoro, responsável pelo resfriamento do corpo.
Outro destaque vai para as axilas, já famosas pelo cheiro de cecê. Como a evaporação do suor no suvaco é mais difícil, e o lugar costuma ter suas metrópoles de bactérias, o cheiro pode surgir, principalmente em convenções de anime. As axilas possuem o mesmo tipo de glândula sudorípara que os glúteos: as glândulas apócrinas, que geram um suor mais espesso, e sua produção pode estar relacionada com estímulos sexuais ou estresse. Então podemos ficar admirados em como a bunda sua, mesmo na ausência de calor.
Já que essa produção de suor onde o sol não toca têm outras origens que não somente o calor, a recomendação segue passar desodorante sempre que for pegar ônibus; e a Rexona não está me patrocinando para recomendar isso.
Em buraco de paca, tatu caminha dentro?
A paca é o segundo maior roedor do Brasil, menor apenas que a capivara. Logo, a paca é maior que a maioria dos tatus. Já dizia o sábio que o bicho é baixinho, e por isso dá dor nas costas. A honrosa exceção vai para o tatu canastra, o maior tatu do mundo, também brasileiro, e que pode pesar até 50 kg e medir quase meio metro de altura.
Sendo ambos animais que vivem em tocas, um tatu poderia se abrigar em túneis de paca (quando ela não estivesse por lá, evidentemente). As pacas costumam cavar túneis complexos, cheios de saída de emergência (ou entradas de tatu). “As pacas adultas têm cerca de trinta centímetros de altura, portanto, seus túneis devem ter cerca de 20 centímetros de diâmetro”, diz o veterinário Frederico Amato, respondendo uma mensagem enviada às 3h da manhã de uma quinta-feira. “É tamanho suficiente para a maioria dos tatus caminharem”.
O grande plot twist[6]encontrado em uma citação na página 22 do artigo CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DAS VIAS BILÍFERAS EM PACA, de 2017 é que são as pacas que normalmente ocupam as tocas construídas por tatus. Elas ampliam e adaptam os buracos, como paulistas construindo puxadinho na periferia. A prática é comum na biologia: se chama comensalismo, que é o nome dado às relações harmônicas entre espécies diferentes, como no filme Zootopia.
Então sim, é totalmente plausível um tatu caminhar dentro, desde que não seja um tatu canastra, que seria pequeno demais para um buraco de paca. E não só isso, mas a recíproca também pode ser verdadeira.
A que horas o sol caminha melhor?
Nenhuma. É óbvio que a velocidade do Sol em relação à Terra é uma constante. O astro se move cerca de 15º por hora, não importa a hora do dia.
Um observador mais perspicaz pode contestar, argumentando que o Sol se movimenta mais rápido nas horas crepusculares, mas é pura ilusão de ótica: nessas horas, a luz solar atravessa uma camada mais densa da atmosfera, gerando uma imagem que faz a bola amarela parecer que se move mais rápido do que ela realmente se move. Isso sem contar o ponto de referência que aumenta a percepção de velocidade. Quando vemos o Sol se pôr no horizonte, isso não é nada mais que sua imagem refratada pela atmosfera, e o astro já foi embora há uns cinco minutos.
A não ser que você seja o Pequeno Príncipe. Aí é só dar um passo pra frente e ver o pôr do sol novamente. Insuportável.
Com cinco quilos de lingüiça, dá pra 20 comer?
Não, não dá. Pelo menos de acordo com o time de especialistas do Açougue Paraguassu[7]Já tive a oportunidade de fazer alguns eventos com eles. Eles são ótimos, mas meio exagerados mesmo. Não estou recebendo nada para divulgar: https://maps.app.goo.gl/s4qaXWkXSNYcxXWGA .
Se o churrasco envolver apenas lingüiça, a quantidade recomendada é de 500g por pessoa, ou, no caso de espetos, sete por pessoa, totalizando 700g. Isso totaliza entre 10kg e 14kg. Mais que o dobro dos 250 gramas resultantes dos cinco quilos de lingüiça da questão. Quinhentos gramas por pessoa soa mesmo meio exagerado, mas ainda assim, confio na resposta do churrasqueiro profissional.
Qual o aumentativo de dacueba?
No aumentativo sintético simples, seria dacuebão.
É só isso mesmo, dessa a gente não tem como fugir.
Updates
Agradecimentos
Fontes e referências
| ↑1 | a Deborah é tão a pessoa certa para responder esta pergunta que, em 2013, ela esteve na equipe que descobriu um híbrido entre duas espécies em Goiás: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1676/13-024.1 |
|---|---|
| ↑2 | este daqui |
| ↑3 | o que é uma pena, dada a importância da pesquisa |
| ↑4 | esta daqui |
| ↑5 | aqui, quadro 1, página 77 |
| ↑6 | encontrado em uma citação na página 22 do artigo CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DAS VIAS BILÍFERAS EM PACA, de 2017 |
| ↑7 | Já tive a oportunidade de fazer alguns eventos com eles. Eles são ótimos, mas meio exagerados mesmo. Não estou recebendo nada para divulgar: https://maps.app.goo.gl/s4qaXWkXSNYcxXWGA |

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